Mafra e as Invasões Francesas

Sem querer aprofundar todas as intervenções dos vários exércitos em solo do concelho de Mafra neste período, regista-se que após a 1ª invasão em 1807 e a ocupação de Lisboa, o General Junot, enviou para norte da capital um grande número de efectivos no intuito de ocupar toda a zona oeste. Assim, foram destacados militares espanhóis e contingentes franceses sob o comando policial do General Loison, o famoso “maneta”.  A crueldade com que impôs a ordem na revolta do Alentejo celebrizou a expressão “ir para o maneta”.

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Convento de Mafra, gravura da época

O plano dos ocupantes era o mesmo que Wellington delineou mais tarde para a defesa de Portugal; proteger a capital e permitir, em caso de fracasso, a fuga pelo estuário do Tejo. Junot não dispunha de meios para a fuga por mar, por isso, quando Wellington, após desembarcar em Agosto de 1808, bateu o General Delaborde na Roliça e, quatro dias depois, Junot na batalha do Vimeiro, o impensável aconteceu, com dois generais séniores a serem colocados no comando da força expedicionária e a negociarem a retirada dos franceses encurralados. A vergonhosa Convenção de Sintra permitiu a Junot regressar a França com todos os seus homens, armas, bagagens e saque a bordo de navios ingleses. Felizmente para a história, o julgamento que se seguiu ilibou Wellington permitindo-lhe o comando do único exército em armas no espaço ibérico após o infortúnio de Moore na Corunha.

O tempo passado em Portugal permitiu a Wellington equacionar alguns cenários e as Linhas de Defesa de Lisboa ou Linhas de Torres Vedras começaram a ganhar forma. A reorganização e treino das tropas portuguesas, debilitadas pela fuga de quadros militares para o Brasil e pela incorporação forçada das melhores unidades na Legião Portuguesa ao serviço de Napoleão, coube a Sir William Beresford responsável pelos elogios de Wellington que, a propósito do soldado português, referiu os seus “galos de combate” como dos melhores em toda a europa.

Esta crescente confiança no exército anglo-luso permitiu-lhe tomar a iniciativa e confrontar o Marechal Soult na passagem do Douro e tomada do Porto em Maio de 1809, durante a 2ª invasão. Enquanto o cenário de guerra se situava a norte, as Linhas tomavam forma no maior secretismo.

Wellington entrou em Espanha acreditando na sublevação em massa de “nuestros hermanos” e no apoio militar das “juntas” contudo, a difícil vitória em Talavera e a falta de apoio dos aliados espanhóis aconselhou o arguto general a saber esperar pelo inimigo no campo de batalha da sua escolha.

Em 1810, os engenheiros de Wellington tinham as Linhas prontas. A protecção da costa e do estuário do Tejo e das vias de comunicação de acesso à capital foram asseguradas pela construção de mais de 100 fortificações divididas em 4 linhas de defesa, a saber:

1ª Linha – 46 km. Desde Alhandra até à foz do Sizandro, passando por Torres Vedras.

2ª Linha – 13 Km. Desde a Póvoa de Santa Iria até Ribamar, passando por Mafra.

3ª Linha – 3 Km. Perímetro compreendido pelo Forte de São Julião da Barra.

4ª Linha – raramente mencionada e que compreendia os altos de Almada impedindo qualquer surpresa vinda do sul.

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Mapa da Época da 1ª e 2ª Linha

Tal empreendimento necessitou de mão-de-obra em grande número e não surpreende que se mencionem mais de 150.000 trabalhadores recrutados na região. Manter um segredo tão bem guardado assentou numa disciplina férrea associado ao temor de ver, mais uma vez, as tropas napoleónicas assolando a zona.

A política de terra queimada impediu muitos dos camponeses para lá das linhas de cultivarem as suas terras e cuidarem dos seus haveres. Wellington fez questão que todas as equipas (de 1.000 a 1.500 homens) fossem pagas pelo seu trabalho, coordenado por um oficial de engenharia inglês e capatazes portugueses.

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Costumes nacionais, Zacarias Félix Doumet

Quando o Marechal Massena à frente de mais de 60.000 homens invade Portugal em 1810, Wellington faz-lhe frente na batalha do Bussaco com pouco mais de 51.000 efectivos. Apesar da vitória, recua, obedecendo ao seu plano de deter a marcha das legiões imperiais em solo queimado e impossível de suprir as necessidades de tantos milhares de homens.

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Batalha das Guerras Peninsulares, Joaquim Gregório da Silva Rato

Posiciona-se no perímetro das linhas e espera pelo movimento do adversário. As fortificações foram ocupadas por tropas irregulares constituídas por milícias e ordenanças portuguesas, por tropas espanholas e por artilheiros e fuzileiros navais ingleses, o seu total ascendia a mais de 40.000 efectivos. O exército anglo-português de 58.000 efectivos posicionava-se dentro das linhas pronto a acorrer a qualquer tentativa de assalto.

A 14 de Outubro de 1810, Massena chegou ao Sobral e do topo de uma elevação ficou surpreendido pela visão das fortificações e pelos montes escarpados que lhe barravam o caminho para Lisboa. Algumas tentativas de penetrar nas defesas foram infrutíferas resultando em escaramuças, sempre sem consequências para a integridade das linhas. Sem alimentos e com o inverno à porta, Massena esperou um movimento em falso dos opositores.

Dentro das linhas os mantimentos eram suficientes e não havia falta de vinho e de divertimentos. Vinham pessoas de Lisboa para visitarem as linhas.

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COLECÇÃO POVO DE LISBOA, Manuel Godinho

A 15 de Novembro o posto avançado britânico descobriu que as sentinelas francesas eram, afinal, bonecos de palha. A retirada que começou na noite de 14 de Novembro de 1810 só terminou em França em 1814 com a batalha de Toulouse.

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ALEGORIA DA EXPULSÃO DOS FRANCESES, Domingos António de Sequeira

Published in: on Março 31, 2007 at 9:19 pm  Comments (4)  

O Enquadramento Histórico

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Entrada de Junot em Lisboa, gravura da época

Quando Junot entrou em Lisboa em Novembro de 1807, sem qualquer oposição, Napoleão terá pensado que o Bloqueio Continental a Inglaterra seria um facto consumado. Contudo, a história provaria o erro de juízo. Graças ao desembarque, em Agosto de 1808, de uma pequena força inglesa sob o comando de Sir Arthur Wellesley, futuro Duque de Wellington[1], as primeiras batalhas no território nacional iniciaram o ciclo de derrotas da poderosa máquina de guerra imperial.

Mafra, mercê da sua topografia particular, desempenhou um papel vital na teia armada através das múltiplas fortificações construídas na 2ª linha de defesa das Linhas de Torres, foi então escolhida como um dos distritos militares das forças aliadas aquando da 3ª invasão em 1810.

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Representaçao de Wellington observando as manobras do exército inimigo, anónimo

Este projecto visa, sobretudo, dinamizar o conhecimento da história do concelho, da arquitectura militar, da uniformologia, da arte da guerra do período e dar a conhecer a toda a comunidade a vivência dos homens e mulheres, militares e civis, envolvidos na construção e defesa das linhas, bem como as impressões deixadas em diários, cartas e memórias dos intervenientes no período compreendido entre a 1ª invasão e a expulsão definitiva das forças invasoras.


[1] Designado como Wellington daqui em diante.

Published in: on Março 31, 2007 at 12:03 am  Comments (1)